Os Konkombas e o processo de contextualização da mensagem bíblica

 

Uma breve introdução

Os Konkombas derivam de uma família étnica que habita o nordeste de Gana, noroeste africano. Receberam a denominação genérica Konkombas na década de 30 a partir de um senso estatístico patrocinado pelo governo ganense, apesar de constituírem etnias diferenciadas, linguística e culturalmente. O termo Konkomba é desconhecido por eles.  As quatro principais etnias que formam esta família são os Bichaboln, Bimonkpeln, Bisachun e Bikum que, juntos, somam mais de 300 mil pessoas entre Gana e o Togo.

Observando as quatro etnias conhecidas como Konkombas, podemos perceber que de forma geral são patrilineares, polígamos, animistas, frequentemente fetichistas, com forte ligação totêmica com animais terrestres, especialmente entre os Bimonkpeln. A organização social institui os clãs como células centrais e os anciãos como representantes de cada célula, sendo um entre eles apontado comoubor, chefe da comunidade ou aldeia. Não há chefes que governem mais que uma aldeia, configurando assim etnias acéfalas e a dispersão é fomentada pela necessidade de cultivo do inhame em uma área onde a terra não permite plantações sequenciais. Para cada plantio anual reserva-se sete anos de descanso da terra. Cada etnia e clã Konkomba é associado a um totem - objeto, planta ou animal - que representa aquele grupo e demanda para si certos tipos específicos de sacrifícios. Os três mais comuns são ‘begangmanm’ – o leopardo - ‘bwawintieb’- o crocodilo - e ‘bekumbwan’ – a hiena.

Há diversas categorias de funções sociais como sábios, conselheiros e ouvintes (apenas ouvem os problemas) bem como categorias espirituais bem demarcadas como curandeiros, sonhadores, feiticeiros e bruxos, sendo que esta última é observada apenas entre os Bikum. O medo da morte é o principal assunto de suas músicas e contos, e morrer em ditosa idade, com mulheres e filhos, e feitos notáveis, a aspiração de todo homem, condição para tornar-se um ancestral.

Em Gana, especialmente na capital, Acra, e em todo o sul, os Konkombas são conhecidos como sendo"Tiwoor  aanib" (povo do mato) por preferir  se isolar em regiões mais distantes. No imaginário popular são agressivos e  senhores de guerras, mas de fato são extremamente hospitaleiros e leais. Para eles a maior vergonha é mentir. O maior pecado a ganância. A maior virtude honrar os pais quando já velhos e lembrar-se deles quando se forem. Os filhos são criados por todos e não há órfãos. As células clânicas garantem sua força e organização social.

Desde 1994 estamos envolvidos no propósito de evangelizar uma destas etnias, que se autodenomina Bimonkpeln (“homens que vivem”), na região de Koni ao nordeste de Gana. Juntamente com minha esposa Rossana, fomos enviados para esta parte do continente africano pela APMT (Agência Presbiteriana de Missões Transculturais) da Igreja Presbiteriana do Brasil em parceria com a A Missão de Evangelizacao Mundial – AMEM conhecida no exterior como WEC International.

A partir de 1995 presenciamos um rápido crescimento na Igreja Konkomba-Bimonkpeln. Na última reunião de presbíteros em outubro de 2000 pudemos contabilizar 17 igrejas plantadas com mais de 3.500 membros adultos, sendo tais igrejas estabelecidas nas aldeias de Koni, Nabukorá, Molan, Kadjokorá, Jimoni, Nbobo, Ipoalim, Sakoni, Bunache, Borla, Sibru, Katan, Naandigoon, Jimbo, Ketiman, Sabol e Koniuba. Em 2006 contabilizaram 23 igrejas, mas sem estatística quanto ao número de membros. Até o momento pudemos treinar biblicamente 5 evangelistas (Labuer, Iagorá, Nprompir, Katal e Kimana) além de 30 presbíteros. Outros 60 líderes estão em treinamento através de cursos de vida cristã que estão sendo ministrados pelos evangelistas. No total, 87 líderes estão ativos nas diversas igrejas e ministérios, sendo apenas os 5 evangelistas sustentados pela Igreja e com tempo integral para o trabalho.

Como mencionamos antes, os Konkombas formam uma família étnica onde o alcance de uma destas etnias não pressupõe o alcance de todas. A distinção linguística e cultural faz com que se autodenominem biniil, primos. A primeira língua nesta família que recebeu o Novo Testamento foi oLichabol (da etnia Bichaboln) traduzido pela missionária Mary Still da SIL, tendo completado recentemente toda a tradução da Bíblia. Um trabalho primoroso.

Iniciamos o trabalho de análise linguística e consequente tradução do Novo Testamento em 1994, para a língua Limonkpeln. Recentemente a Missão Metodista de Gana trabalha na grafia da terceira língua da família, da etnia Bikuln.

Iniciamos o trabalho linguístico a partir da estrutura fonética, composição da gramática Limonkpeln e preparação de um pequeno dicionário. Logo após terminamos as cartilhas para alfabetização através das quais pudemos contabilizar no ano 2.000 mais de 500 adultos já alfabetizados na língua materna. Nesta altura já contávamos com alguns livros do Novo Testamento traduzidos e finalmente concluímos a tradução primária em 2002. Iniciamos então o processo de revisão, retrotradução e teste comunitário. Em Outubro de 2004 o Novo Testamento completo foi entregue à Igreja em um culto onde se ajuntaram crentes de todas as 23 igrejas da etnia, em uma grande festa.

Esta tradução foi resultado de um trabalho em equipe. Cinco irmãos Konkombas colaboraram exaustivamente durante vários anos, especialmente no processo inicial de coleta de informações e mais ao fim no teste comunitário quando todos os versos bíblicos eram apresentados sistematicamente para representantes de três diferentes dialetos Limonkpeln a fim de testarmos o nível de comunicação. Gostaria de destacar Balabon, que esteve comigo durante todos os sete anos de trabalho e praticamente liderou toda a revisão do texto junto ao povo. Também Dambá que se especializou na coleta de informações linguísticas relevantes para uma melhor tradução textual. Ele é hoje o responsável pela distribuição do Novo Testamento. Também lidera o movimento de alfabetização na língua Limonkpeln.

Nosso objetivo para o trabalho entre os Konkombas, inicialmente, era o plantio de igrejas. Nossa motivação para traduzirmos o Novo Testamento teve início quando, nos primórdios da Igreja, reuníamos alguns crentes de cada aldeia evangelizada a fim de discipula-los. Seriam os futuros líderes. A cada mês, portanto, eles vinham de suas aldeias e passavam um final de semana conosco em Koni, uma aldeia central onde morávamos. Ali ensinávamos a Palavra e, por não tê-la na língua local, cada crente memorizava alguns versículos bíblicos para reproduzi-los para seu grupo ao voltar para casa. Uma mulher, Aadjo, vinha de Kadjokorá, uma das aldeias mais distantes que distava quatro dias de caminhada. Permaneceu conosco naquele fim de semana aprendendo a Palavra e memorizou, juntamente com os outros crentes, 13 versículos. Após o final de semana ela retornou para sua casa. Seriam quatro dias de viagem. Porém, após dois dias ela esqueceu-se de um dos versículos bíblicos. Decidiu então regressar imediatamente para nossa aldeia e tal foi nossa surpresa ao vê-la chegando. Ao narrar o motivo que a trouxe ela afirmou que ‘a Palavra de Deus é importante demais para ficar ao longo do caminho’. Rememorizou o versículo que esquecera, descansou aquela noite e se pôs a caminhar, por mais quatro dias, para chegar à sua aldeia.

Este fato fez com que decidíssemos, imediatamente, iniciar o trabalho de tradução de maneira mais formal. Tivemos forte apoio da igreja local.


Perspectiva missionária

Dentro de uma perspectiva interna, missionária, identificamos o rápido crescimento da Igreja entre osKonkomba-Bimonkpeln, de Gana, ligado a 7 fatores essenciais.

Cobertura de oração

Observamos um número expressivo de irmãos e igrejas no Brasil que se comprometeram a interceder pelos Konkomba-Bimonkpeln desde 1993. Durante os anos de maior crescimento da Igreja na etnia, havia no Brasil um crescente interesse na intercessão pelo povo. Fora do Brasil a WEC levantou muitos intercessores especialmente durante os ultimos anos de finalização do projeto de tradução do Novo Testamento. Minha mãe, Euza Lidório, que lidera um movimento de intercessão missionária no Brasil com mais de 600 grupos que se reunem semanalmente para orar, priorizou os Konkombas durante muitos anos em seu boletim que guiava o povo para a intercessão.  Em diversas ocasiões vimos uma estreita ligação entre um súbido interesse da Igreja Brasileira em orar pelos Konkombas e uma posterior onda de aceitação do evangelho na tribo.

Estamos convictos que o movimento de oração pelo povo está intimamente ligado ao crescimento da Igreja naquele lugar.

Observação cultural

Cremos que a abordagem do povo Konkomba-Bimonkpeln a partir de uma observação cultural mais ampla proporcionou menores riscos de nominalismo e sincretismo durante a apresentação do Evangelho. Foram aplicados três métodos de avaliação cultural que denominados ‘Antropos’ (método de análise etnográfica, com certa ênfase etnológica), ‘Pneumatos’ (método de análise fenomenológica) e ‘Angelos’ (método de propostas para o desenvolvimento de uma teologia aplicável) os quais colaboraram de maneira vital para a elaboração de 27 pontos bíblicos que precisavam ser expostos de forma clara e culturalmente compreensível para que houvesse uma boa comunicação dos fundamentos do Evangelho.

No universo Konkomba-Bimonkpeln o religioso não é distinto do não religioso, o sagrado do secular, o espiritual do material ou o corpo da alma. O religioso está presente em toda forma de expressão de vida: trabalho, alimentação, guerras, procriação e descanso. Nascer na sociedade Konkomba-Bimonkpeln significa seguir um grupo de rituais e cerimônias que fazem parte da vida e sobrevida tribal. Não há ateus. Todos crêem nos espíritos, malignos ou a-éticos (não há bons espíritos), nos fetiches representados por montanhas, árvores, rochas ou ainda feitos por mãos humanas, nos ídolos feitos de madeira ou pedra, nos totens representados em geral por diferentes animais, em Satã –“Kininbon” – senhor de todos os maus espíritos, e nas almas dos ancestrais que demandam respeito e sacrifícios como forma de se evitar punição. Contrapondo este deprimente universo todos já ouviram falar em Uwumbor, um Deus antigo de épocas idas e sonhos distantes que já não mais se relaciona com o povo.

Dizem: ‘Uwumbor já não deseja mais ser Deus entre a tribo’ por alguma ofensa grave registrada na cosmogonia do povo. Narram que no início dos tempos Uwumbor criou uma família que habitava uma ilha. Viviam bem e especialmente alegres porque o pacham (céu azul, visível por nós) era bem baixo e podia ser tocado se alguém subisse em uma árvore alta. Uwumbor permitiu, portanto, que o homem cortasse um pedaço do céu a cada dia, pois ali havia muita carne, em abundância, para que a família se alimentasse. Durante muitos anos foram felizes e o homem subia diariamente em uma árvore alta para cortar um pedaço do pacham e trazer saborosa carne para a família. Certo dia, porém, o homem passou a pensar, no alto da árvore, como seria infeliz se aquele céu desaparecesse e não houvesse mais carne. Daí resolveu cortar pedaços enormes do céu lançando carne em grande abundância para a família. A mulher o preveniu que havia carne demais, mas ele não a ouviu. Continuou cortando e, quando desceu, percebeu que havia muito mais do que poderiam comer naquele dia. No dia seguinte boa parte da carne havia apodrecido e ele percebera o mal que havia feito. Naquele momento Uwumbor chegou à ilha para conversar com a família, como ele fazia costumeiramente. Vendo, porém, a carne colhida em quantidade muito maior do que ordenara, e apodrecendo no chão, se entristeceu com o homem e o chamou de ujá-uleen (homem ganancioso) indo embora para longe, sem jamais voltar. Levou também consigo o céu, pacham, com toda sua carne e por isto é que ele pode ser visto até hoje, bem distante e ainda azul, mas inacessível.

Esta cosmogonia levou-nos a utilizar terminologicamente Uwumbor como Deus, desenvolver os elementos necessários para uma teologia bíblica de criação, pecado, queda e redenção. Junto a ela outras 12 cosmogonias e mais de 20 antropogonias ajudaram-nos a perceber o padrão de cosmovisão do povo em relação ao seu universo. Cremos que tínhamos os elementos necessários para comunicar a criação e queda descritas em Gênesis.

A observação sistematizada cultural proporcionou o ambiente para o desenvolvimento da comunicação do Evangelho de forma aplicável, em um primeiro momento, e ajudou-nos a pontuar as áreas de difícil comunicação onde o sincretismo poderia surgir.

Evangelismo abundante e intencional

Cremos que a abrangência e quantidade da evangelização é tão relevante quanto sua qualidade. Em um processo bíblico de plantio de igrejas é necessário sermos lembrados que a centralidade da Palavra define a fidelidade da Missão. Ou seja, não optaremos por mecanismos que simplesmente culminem em resultados atrativos, mas sim por mecanismos fundamentados na Palavra e na visão de Deus.

Isto não elimina, porém, a necessidade de uma evangelização abundante. A quantidade e constância da evangelização tornam-se fundamentais em um processo de plantio de igrejas. Em um campo missionário, seja culturalmente distinto ou geograficamente próximo, a abundância na evangelização deve ser uma prática intencional.

De 1993 até 2005 cremos que cerca de 100.000 Konkombas (majoritariamente da etnia Bimonkpeln, mas também BikulnBisachuln) ouviram diretamente o evangelho seja pela atuação dos missionários, dos líderes Konkombas ou dos crentes em geral. A forma mais comum de evangelismo era fomentar ajuntamentos nas principais aldeias e apresentar-lhes a história de Uwumbor, Deus, a partir de Gênesis.

Sendo uma cultura com vasta cosmogonia, perfil messiânico e culturalmente tradicional, histórica, iniciamos a evangelização apresentando-lhes Deus, seu caráter e atributos. Apesar de o apresentarmos como justo, amoroso e misericordioso seu atributo mais chamativo para um povo espiritualista, totêmico e animista foi seu poder. Perguntavam várias vezes se estava bem claro na ‘história de Deus’ (Bíblia) que Ele era maior que Grumadii, que era o espírito aético mais temido e invocado na região. Na cosmovisão do povo não era digno de confiança, porém não era seguro desafiá-lo.

O evangelismo, portanto, abundante e intencional, era prática constante de aldeia em aldeia, com grandes e pequenos ajuntamentos. Cada um que se convertia juntava-se a nós para o próximo evangelismo.

Este evangelismo abundante e amplo envolvia pregações nos centros de cada aldeia em alta voz, de forma que mesmo os que não desejavam ouvir não tinham como faze-lo. Como resultado de um destes momentos converteu-se Mebá, feiticeiro de Koni e guardião de grumadi. Era “kinyiang”, dia de descanso Konkomba, e Mebá estava sentado embaixo de uma árvore próxima à sua palhoça no limite oeste de Koni. O conhecíamos apenas como um feiticeiro que era temido pelo povo e protagonista de “Kinyek aabauel” – noites de sacrifícios - onde chegavam a imolar até 300 animais em uma só noite a grumadii e outros fetiches, em épocas bem especiais. Pouco contato havíamos tido com ele pessoalmente, até mesmo pelo estilo de vida arredio e isolado de um feiticeiro. Também já tínhamos ouvido a respeito do sacrifício de seu neto no tempo da sua chegada a Koni.

Ali estava ele sentado embaixo daquela árvore. Já havíamos exposto o evangelho ao seu clã e família e por duas vezes em sua palhoça, apesar dele mesmo nunca sair de seu pequeno quartinho enquanto falávamos ao restante da família. Era certo,porém, que nos ouvia e nunca nos proibiu de entrar em sua casa. Era um homem muito falante, porém estava quieto e pensativo naquele dia. Eu tomava banho na palhoça onde morávamos quando um rapaz aproximou-se e disse: “Está acontecendo alguma coisa com Mebá”. Todos correram e uma pequena multidão logo se juntou ao seu redor. Aquele homem estava pulando, dançando e gritando. Uma pequena multidão o cercou e ele olhava para todos, se mexendo de um lado para o outro, como quem queria lhes falar algo. Eu me juntei ao grupo pensando que algo terrível teria acontecido com ele, como ser picado por uma cobra ou atacado por uma pessoa. Ao vê-lo imaginei se estaria sob alguma influência maligna.

Perguntaram-lhe: “Mebá, o que está acontecendo?” E ele respondeu euforicamente: “Há algo novo em mim. Comecei a pensar e entender o que falam a respeito de Yesu Kristu. Ele é mesmo filho de Deus. Ele é mesmo mantotiib de Deus. Ele é mesmo a esperança de um dia vermos Uwumbor. Entretanto o que entendi hoje, e que era o meu único temor desde a primeira vez quando o evangelho começou a fazer sentido para mim, é que Yesu Kristu, é mais poderoso que grumadii. Não há o que temer”.

Suas palavras eram como flechas na multidão. Um feiticeiro, guardião grumadii, dizendo que o Deus da criação, Uwumbor, é mais poderoso! Uma cena inimaginável até então. Ele não fez nenhuma referência a mim, a outras pessoas ou a qualquer pregação em especial que teria ouvido. Estava tendo uma íntima experiência com Deus, e senti que o Senhor lhe retirava naquele momento todo o medo. “Não há o que temer”, dizia ele repetidamente. A base de sua mensagem, até os dias de hoje, é que Uwumbor é mais poderoso.

Todo evangelismo, desenvolvimento histórico processual e as vezes cronológico do Evangelho a partir de Gênesis tinha como objetivo apresentar a Cristo. Os elementos fundamentais para o processo evangelístico eram: a) Deus Criador, amoroso e maior que os espíritos; b) O homem caído, com sua descendência, se distanciando do Criador; c) O desejo do Criador para resgatá-lo, com um desenvolvimento de um plano universal, para todos os povos; d) Jesus, o plano de Deus, filho de Deus e Deus, encarnado; e) Jesus, sua morte, salvando os homens, sua ressurreição estando entre nós; f) O Espírito Santo, enviado para estar e guiar a Igreja, está entre nós; g) A Igreja, proposta de Deus para a comunhão e fortalecimento, para adoração bonita que alegra a Deus; h) A Missão, responsabilidade do crente, para passar adiante o que ele sabe e experimentou; i) A expectativa, Jesus voltará, o céu é nosso lar.

Desenvolvimento de uma identidade eclesiástica autoctone

Nosso pressuposto ao plantar igrejas é que a igreja local é a forma mais eficiente, auto-sustentável e duradoura de comunicar o evangelho dentro de um perímetro, seja um bairro, um segmento social ou uma etnia culturalmente definida pois:

a) Gera demanda pela comunicação de um evangelho culturalmente compreensível;

b) Estabelece localmente o Reino;

c) Duplica o efeito missionário. Igrejas plantam igrejas.

Para que isto aconteça de forma enraizada é preciso que seja desenvolvida nesta Igreja (a partir das igrejas locais) uma identidade eclesiástica bíblica e própria, fazendo-os entender que não são apenas a reprodução de um modelo externo, mas sim o resultado da aplicação de um Evangelho supracultural e atemporal, para todos os povos em todas as gerações, onde também estão incluídos.

Alguns valores precisam ser ensinados, biblicamente, desde o nascedouro desta Igreja.

 

  • A Igreja é a comunidade dos redimidos, foi originada por Deus e pertence a Deus (1 Co. 1:1-2);
  • A Igreja não é uma sociedade alienante. Aqueles que foram redimidos por Cristo continuam sendo homens e mulheres, pais e filhos, plantadores e comerciantes que respiram e levam o evangelho onde estão (1 Co 6:12-20);
  • A Igreja é uma comunidade sem fronteiras, portanto fatalmente missionária (Rm 15: 18-19);
  • A vida da Igreja, acompanhada das Escrituras, é um grande testemunho para o mundo perdido. É necessário, portanto, que preguemos um evangelho que faça sentido tanto dentro como fora do templo (Jo 14:26; 16:13-15);
  • A missão maior da Igreja é glorificar a Deus (1 Co. 6:20; Rm 16:25-27).

 

Tentamos não ceder à tentação de caminharmos sós. Desde o momento em que Mebá se converteu e trouxe consigo sua família com 11 filhos iniciamos um esforço conjunto para que todo passo, fosse evangelístico ou o estudo cultural para melhor comunicação de um ensino bíblico aos novos crentes, pudesse ser dado lado a lado. Incluir os recém-convertidos no processo de evangelização do próprio povo, estudo da Palavra para ensiná-la aos seus, processos de decisão para os ajuntamentos e cultos, liturgia, visita aos enfermos, resposta aos feiticeiros que nos desafiavam etc., mostrou-se uma atitude extremamente frutífera. Não é suficiente desenvolver uma eclesiologia bíblica e contextualizada. É necessário fazer isto junto ao povo e com sua participação.

Gostaria de enfatizar este ponto. Olhando para trás percebemos hoje que muitíssimos erros foram evitados, e alguns graves, porque desenvolvíamos a teologia bíblica e evangelismo junto com o povo local, os primeiros convertidos. Apesar da compreensão limitada do Evangelho, na época, a contribuição para o processo de comunicação (e discernimento do sagrado e profano na cosmovisão local) cooperou em áreas estratégicas. Lembro-me que gastei dias estudando os diversos toques de tambor utilizados na tribo a fim de compreender se algum deles era direcionado exclusivamente à invocação demoníaca, culto aos ancestrais ou nos rituais animistas de purificação. Certo dia, Mebá vendo meu esforço simplesmente comentou: “você quer saber que toques são ruins? É simples, pergunte a uma criancinha Konkomba que ela mesma saberá lhe mostrar”.

Envolvimento da Igreja com os conflitos sociais

A assistência médica, colaboração com educação e perfuração de poços de água limpa angariou muito mais do que a simpatia da etnia para a Igreja que nascia. Em um segundo momento a educação na língua materna também se aliou a este esforço. Estas atividades envolveram a Igreja nos conflitos sociais evitando que se transformasse em uma instituição alienada. As atividades sociais receberam bastante atenção, concentrada especialmente no trabalho de saúde (onde em média 3.000 pessoas eram tratadas a cada ano), educação (escola formal para crianças e alfabetização na língua materna para adultos) além da perfuração de poços de água dera vida e experiência confirmativa (aquilo que culturas sócio interativas observam na tentativa de definirem se as palavras são confirmadas pelas ações). No universo Konkomba, e humano, seria impossível compreender um Cristo que ama apenas a alma e despreza o sofrimento presente e visível do corpo.

Um efeito extremamente positivo adveio desta sensibilidade social. Em um primeiro momento, quando os primeiros convertidos vinham para o Senhor Jesus, a sociedade Konkomba-Bimonkpelnesboçou exclui-los do convívio social. Alguns foram expulsos de suas casas e outros passaram a perder o direito ao rodizio de terras para o plantio do inhame. Os conflitos humanos como enfermidades, sede e fome, porém, serviram de ponto de convergência e união. Ao tomarmos como Igreja uma iniciativa social (perfuração dos povos de água, por exemplo) nós sempre o fazíamos a partir da Igreja, porém junto com a sociedade. O chefe de cada aldeia era procurado, juntamente com o concílio dos anciãos. Não raramente o feiticeiro da aldeia estava presente. E ali um grupo da Igreja expunha a necessidade humana, a possibilidade de solução, e a necessidade do trabalho conjunto. A medida que as iniciativas sociais avançavam víamos que a resistência da sociedade à Igreja era minimizada. Até mesmo a mensagem de Cristo passou a ser mais tolerada.

Lembro-me com exatidão do dia em que todos se juntaram na aldeia de Koni para testarem o poço de água recém-perfurado. Havia muita expectativa e, como todos haviam participado, crentes e não crentes, era um projeto com pleno interesse comum. Enquanto a água jorrava Labuer, um dos líderes da Igreja em Koni, tomou a palavra e durante alguns minutos lhes falou sobre Jesus como a água viva para cada um. Todos gritaram alegres e talvez pela primeira vez Jesus foi apresentado publicamente sem oposição. A Igreja havia rompido a barreira da antipatia social naquela aldeia.

Envolvimento dos recém-convertidos no evangelismo e testemunho

Assim que se convertiam, estes crentes eram envolvidos com algum trabalho que requereria testemunharem. Praticávamos o rápido e integral envolvimento dos recém-convertidos em ambientes onde pudessem testemunhar de seu novo nascimento. Cremos que isto os fortalecia e, em uma cultura oral, o testemunho é deveras importante em qualquer acontecimento marcante da vida. Também produzia um efeito multiplicador da pregação do Evangelho.

Voluntariado junto a um trabalho social, apoio a evangelistas, participação de cultos públicos eram algumas atividades das quais aqueles que se converteram com 24 ou 48 horas já participavam. Havia certamente o risco do desencorajamento a partir dos que, eventualmente, não permaneceriam na fé, porém no presente contexto era um número pequeno e, assim, o efeito do testemunho da sua fé era cativante e afirmador.

Kidiik foi o recém-convertido que mais se destacou em seu testemunho. Ele havia desde criança sido preparado para atuar como o guardião dos fetiches familiares, uma função de destaque na religiosidade do povo. Para tal foi criado por um dos feiticeiros locais, distante de seus pais, e aprendeu toda a perícia na manipulação de elementos naturais e sobrenaturais. Tornou-se um rapaz excluído ao qual todos temiam. Era tímido, um pouco gago e franzino. Após sua conversão Kidiik passou a testemunhar de Cristo em muitos lugares e sempre que o fazia ele expunha o engano proposto pelos espíritos. Falava sobre as técnicas ensinadas para manipulá-los e engana-los em detrimento do benefício humano. Também os ritos para produzir enfermidade ou perturbação a outras pessoas além do significado dos elementos de sacrifício, quando era exigido por grumadii, um espírito temido naquela região. Isto gerou um levante contra ele e diversas vezes foi ameaçado. Na época chegamos a pedir que ele não revelasse publicamente detalhes dos ritos praticados pelos feiticeiros. Porém, olhando hoje para trás, percebemos que esta intrepidez de Kiddik, e sua participação nos ajuntamentos evangelísticos contribuíram tremendamente para minimizar o temor que o povo tinha em relação aos espíritos e procurar o poder de Deus. Aquele recém-convertido foi um diferencial no evangelismo entre os Konkombas nos primeiros anos e sua rápida integração em ambientes favoráveis ao testemunho foi um ganho para ele e para o avanço do evangelho.

Concentração no discipulado de líderes

Cremos que, ao avaliarmos o crescimento de uma igreja não devemos contabilizar os seus crentes locais, mas o número daqueles que estão envolvidos em discipulado. Cremos que em um trabalho embrionário é mais relevante um ajuntamento de seis pessoas sendo discipuladas no evangelho do que de 60 pessoas para cultos semanais.

Imediatamente à conversão dos primeiros que vieram ao Senhor Jesus em 1993, iniciamos o discipulado. Dos cinco pastores Konkomba-Bimonkpeln, quatro deles são frutos da primeira e segunda leva de discipulado.

Em média investíamos dois anos com discipulado semanal (dois encontros por semana) com cada pessoa, de maneira formal. Informalmente estávamos sempre juntos.


Perspectiva missiológica – contextualização

O pecado é cultural e manifesta-se culturalmente. No processo de plantio de igrejas torna-se essencial, portanto, ter respostas bíblicas para os conflitos humanos e isto é feito tendo em uma das mãos uma boa observação da cultura e suas implicações perante o confronto do Evangelho, e em outra mão a Palavra de Deus em um estudo sistemático que possa fornecer respostas para cada situação. Assim identificamos as áreas de conflito cultural e iniciamos o estudo da Palavra sobre as mesmas, desenvolvendo ‘teologias bíblicas’ aplicáveis em cada contexto. Por ‘teologias bíblicas’ me refiro a estudos sistemáticos bíblicos, temáticos, que possam propor atitudes cristãs seguras no amadurecimento da Igreja e compreensão do evangelho.

A importância de tal estudo ser realizado cedo, em um processo evangelístico mais comunitário, é que as raízes do sincretismo surgem normalmente nos primeiros momentos. E são resultado de espaços vazios onde não ensinamos a Palavra como resposta de Deus para determinadas situações. Em nosso caso as situações da vida mais conflitantes para o povo Konkomba-Bimonkpeln eram encontradas no nascimento, casamento, funeral e festa dos novos inhames.

Nascimento. Culturalmente, após um ano (ou três anos entre os Bikuln) o nome é dado à criança depois de uma complexa análise dos fatos que ocorreram durante ou antes daquele nascimento.

Os Konkombas creem que Libuln, um espírito de morte, pode atacar e matar crianças ainda pequenas e mais frágeis. Como, na cosmovisão tribal, tais espíritos abordam as pessoas a partir de seus nomes (que determinam a identidade, sendo estes proverbiais), uma solução encontrada foi postergar a nomeação e assim proteger as crianças em seus primeiros meses ou anos de vida.

Após um ano, aproximadamente, o nome é dado à criança perante a presença de todos os parentes. Porém este não é o nome permanente, apenas temporário. Este nome temporário vem servir ao mesmo propósito de proteção, desta vez enganando o espirito de morte. Tal nome pode ser trocado duas ou três vezes e apenas os pais sabem, nesta altura, o nome verdadeiro da criança, que decidem em conversa sussurrada em algum momento.

Os convertidos a Cristo passaram a dar nomes a seus filhos em um culto quando os líderes se reuniam para orar a Deus pela proteção dos pequeninos. Os nomes, culturalmente aceitos e ainda proverbiais, passaram a representar o que Deus fazia entre eles durante o momento do nascimento, ou circunstância que antecedia o fato. Os nomes eram dados cerca de três meses após o nascimento, visto que os Konkombas não saem com as crianças muito pequenas de suas casas. Os nomes passaram a ser permanentes, pois não havia mais temor de morte por ataque espiritual, e crendo que Deus é quem nos protege. Gêmeos, que são tabu na cultura Konkomba chegando ao sacrifício de um deles (o segundo a nascer), passaram a ser aceitos e receberem nomes como qualquer outra criança.

Casamento. Tradicionalmente os casamentos Konkombas eram feitos por arranjo familiar garantindo a parceria entre clãs e famílias próximas. Com a chegada de grumadii, espírito temido que por décadas centralizou a adoração em Koni, uma das grandes imposições ao cotidiano tribal foi o casamento por troca, por influência Ewe e Bassari, onde apenas rapazes que possuíam irmãs poderiam se casar, usando-as para trocá-las por irmãs de outros rapazes.

Assim nascia o casamento simbiótico onde um relacionamento sempre dependeria do outro paralelo. Se um relacionamento estivesse indo mal dois seriam desfeitos e as irmãs retornariam às casas de seus pais. Ao longo das décadas este costume gerou uma cultura de relacionamentos frágeis e instáveis com altíssimo índice de separações, além do temor de casais estáveis verem-se subitamente forçados a uma separação pela queda do casamento paralelo.

Os convertidos restauraram a proposta do casamento por dote, culturalmente Konkomba e socialmente relevante. E condenaram o casamento por troca como sendo um costume originalmente Ewe e não Konkomba, e causador de diversas disfunções familiares. Tradicionalmente não há uma cerimônia pontual de casamento entre os Konkombas, o que se enquadra perfeitamente na perspectiva de tempo cíclico e não linear da tribo. Assim, a Igreja passou a realizar os casamentos em cultos onde a bênção do Senhor era pedida sobre a nova família seguindo a mesma perspectiva cíclica. Dividimos todo o processo por partes culturalmente aceitáveis, quatro no total, e a união física entre marido e mulher aconteceria após a conclusão da última parte, e após o dote ser entregue pelo homem aos sogros, seguindo uma complexa tabela que envolve respeito, valores e relacionamento. Poderia ser, neste caso, uma plantação de inhames, nova, utensílios para a casa, preferidos pela sogra, ou uma quantidade predefinida entre as partes de inhames de bom tamanho, não inferior a 800 unidades, e de certas espécies definidas, com 10% de puná, considerado o melhor da região e dificílimo de ser conseguido. Um ancião da Igreja acompanha todo o processo e aconselha as partes. Os anciãos clânicos continuam sendo ouvidos, porém com a presença do ancião indicado pela igreja.

Funeral. Morrer idoso, com muitos filhos e grande número de pessoas dançando em seu funeral é o sonho de todos os Konkombas. Assim, o funeral é a festa mais planejada e frequentada em todas as festas tribais.

Ao morrer uma série de obrigações deveria ser cumprida pela família para assegurar que o espírito do falecido não ficasse eternamente nas mãos de grumadii. O funeral, desta forma, seria aceito apenas após o sacrifício de um número indefinido de vacas, cabras e galinhas. O feiticeiro local, em momento propício, indicaria o que seria necessário. Isto levou os Konkombas a trabalharem toda uma vida com a única finalidade de ganhar número suficiente de vacas, cabras e galinhas guardando-as preciosamente para o caso de sua própria morte repentina, pois devemos observar que nesta tribo, como em boa parte a África, o funeral é a cerimônia de maior valor social e determina seu estado pós-morte.

Estes animais progressivamente se transformaram em artigos preciosos e desapareceram da vida diária. Assim a tribo passou a se alimentar mais comumente de macacos, ratos e morcegos, reservando o melhor para grumadii durante os funerais.

Para isto a Igreja adotou um processo de funeral onde os valores de invocação espiritualista foram negados, mas o ato cultural em si manteve sua importância social ajuntando os parentes, lavando o morto antes de enterra-lo, enterrando-o de cócoras em um buraco profundo e redondo. Porém alguns fatos foram abolidos por entendermos que havia um cenário animista que os pré-determinavam como a apresentação do morto às crianças, o isolamento da viúva que passaria sete dias sem alimento e banho, a quebra das cabaças no momento do enterro. Em lugar das músicas onde fetiches são invocados a Igreja compôs hinos que falam sobre a realidade da vida com Deus após a morte do crente. Foi exaustivamente ensinado (e era repetido para todo recém-convertido) o valor bíblico da vida e da morte e a segurança que temos em Cristo. A Igreja parece-nos contente e bem nutrida neste assunto, que era um dos pontos mais sensíveis na cultura.

Festa dos novos inhames. Assim que colhem os novos inhames há uma festa com grande ênfase demoníaca, onde normalmente ocorre uma possessão coletiva liderada pelo grupo de feiticeiros da região. Este era um momento esperado durante todo o ano, onde se cria que os espíritos poderiam abençoar ou amaldiçoar a colheita gerando abundância ou fome.

Mais uma vez grumadii era o espírito sobre o qual recaíam as atenções, pois seus guardiões promulgavam a exigência de sacrifícios a fim de não condenar a colheita.

A Igreja não fechou os olhos para a importância humana e cultural da colheita. Além de ser um ponto de convergência de atenção cultural era também um momento que definia a subsistência deste povo plantador. Os convertidos passaram a sugerir que os crentes trouxessem os primeiros inhames para que orássemos em um culto especial agradecendo ao Senhor pela safra e pedindo pela colheita que se seguiria. Este ato foi grandemente aceito pelo povo que anualmente, com alegria, passou a trazer as primícias da colheita como agradecimento a Deus. Milhares de inhames são doados à Igreja neste momento e guardados (duram até um ano se enterrados) para suprir as viúvas, enfermos, necessitados e os evangelistas com tempo integral.

Houve claro ensino bíblico contra a crença de que há espíritos específicos coordenados por grumadii encarregados de proteger ou amaldiçoar cada plantação. Também a respeito dos fetiches de proteção que precisariam ser construídos em cada roça, a ‘lavagem’ do primeiro inhame colhido exorcizando assim algum possível espírito que o possuísse, as ‘árvores de invocação’ plantadas sistematicamente do lado oriental de cada roça e o alimento deixado perante as mesmas a cada época de monções para o alimento dos watiir aniib, um ‘povo pequeno, com olhos vermelhos e pele branca, que vive nestes lugares e pede comida constantemente sob pena de destruir nossas roças’, é a definição desta versãoKonkomba dos duendes. Os convertidos, porém, não menosprezaram estas experiências condenando-as ao imaginário popular, mas as trataram com oração e ensino da Palavra a fim de gerar segurança àqueles que lidam diariamente com suas roças. Não raramente tínhamos cultos nas roças e visitas ‘pastorais’ eram frequentemente nas roças.


Perspectiva eclesiológica – a vida interna da Igreja

Há alguns pontos na comunicação formal de cunho transcultural que sem dúvida são fundamentais no processo de plantio de igrejas. Gostaria de mencionar alguns tendo em mente o crescimento da Igreja local que experimentamos entre os Konkomba-Bimonkpeln.

A mensagem ali é comunicada na língua do povo, que é o Limonkpeln. Entre os diversos dialetos falados ao redor de Koni foram escolhidos aqueles que chamamos de “dialetos domésticos” que são falados em um meio familiar e evitados os dialetos de comércio que, apesar de mais ricos gramaticalmente, são usados como uma segunda língua.

As músicas foram preparadas na língua local (Limonkpeln) sempre pelo povo local, convertido, e no limite do possível, músicas “Twii” – língua do sul, do povo Ashante, de grande influência em Gana – foram evitadas. Músicas e danças de identificação sociocultural eram usadas na liturgia, mas uma grande atenção contra o sincretismo foi dada especialmente nos primeiros dias em que a liturgia se definia como forma de adoração a Deus.

Foi feito claro ao povo desde as primeiras exposições da Palavra que o evangelho promoveria mudanças culturais. Demos tal ênfase a fim de evitar uma Igreja utópica e riscos sincréticos. Foi pregado que mudanças culturais não são necessariamente aculturais desde que decididas socialmente, sob influência da Palavra que é supracultural. Toda cultura possui a liberdade de escolha a partir da releitura dos próprios costumes e sincera conversão ao Senhor Jesus.

Exposições das verdades bíblicas no processo pós-tradução (explicativo) foram feitas para o povo utilizando o contexto cultural como histórias, mitos, provérbios e músicas a fim de assegurar o que podemos chamar de entendimento aplicável, ou seja, aquilo que pode ser entendido em uma segunda cultura e aplicável no contexto e vida local.

Liderança local foi a principal ênfase desde o início a fim de promover uma melhor ponte de comunicação. Frequentemente jovens presbíteros conseguiam explicar melhor que nós os conceitos bíblicos com implicações culturais.

Liturgia e teologia foram aplicadas como um resultado de exposição bíblica e não o contrário. Em cerca de 90% dos casos os membros locais e especialmente presbíteros sugeriam ótimas aplicações dos conceitos bíblicos na vida prática do povo e em poucos casos fora necessário uma forte intervenção missionária. O trabalho missionário concentrou-se na exposição bíblica em dialeto local e facilitação destes encontros e debates.

O resultado do derramar da graça de Deus promoveu um povo com certas atitudes positivas quanto ao Evangelho, de forma geral, e uma igreja em franco amadurecimento. Gostaria de compartilhar, portanto, três destas atitudes que mais nos chamam a atenção.

Amor pela Palavra

Certa semana todos memorizaram, por exemplo, Mateus 14:34-36 e gostavam especialmente da parte final “e todos os que o tocaram ficaram sãos”. Mulheres repetiam incessantemente este pequeno texto a caminho do rio quando iam buscar água, outros durante o trabalho nas plantações e as crianças ao brincarem embaixo das árvores. Várias pessoas que moravam em aldeias distantes, ao esquecerem parte do texto que memorizaram naquela semana, viajavam várias milhas até o crente mais próximo a fim de perguntarem-lhe: “como é mesmo esta parte?”. Também compunham músicas cantando os versos bíblicos para que não se esquecessem. Havia um grande interesse e uso da Palavra, mesmo com o padrão da comunicação oral.

Perseverança na perseguição

Nos dois primeiros anos do nascer da Igreja entre os Konkombas houve um período de perseguição aos recém-convertidos por parte dos feiticeiros locais como também das famílias. Muitos como Gbaba, Tinaa e Malaanyin chegaram a ser expulsos de suas casas e outros como Kofii e Akuia foram expulsos de suas aldeias vindo a se refugiar em Molan onde a igreja já se fortalecia. Akuia por três semanas foi literalmente enjaulada por seus pais sob o incentivo do feiticeiro local em Jimoni, a fim de negar que se tornara uma “Yesu Aanonoliib” – seguidora de Jesus. Muitos perderam direitos a terras e plantações e algumas mulheres foram ameaçadas pelos maridos. Alguns líderes eram ameaçados de morte e envenenamento. O presbítero Mebá sofreu tentativa de envenenamento por três vezes e na última chegou a beber da água envenenada adoecendo profundamente.

Entretanto uma contagiante alegria corria pelo sangue de cada crente. Júbilo e adoração eram as marcas de cada culto e uma tremenda paixão por Jesus era manifestada na vida dos salvos. Víamos algo que nos edificava grandemente: um desejo irrestrito de seguirem a Jesus. Dezenas de músicas eram feitas expressando o que sentiam pelo Mestre e muitos títulos foram dados a Ele: Senhor da vida e da morte; Fonte de alegria que não para; Caminho a seguir para sempre; Motivo de viver com segurança; Deus que veio desde o início; Querido Senhor; Fonte do gostar; Esperança que não para; Vitorioso.

Motivação evangelística

Quase que automaticamente os recém-convertidos lançavam-se na tarefa de compartilhar a respeito da salvação em Jesus Cristo. Kidiik era tão eufórico em seu testemunho que evitávamos que falasse em público prevendo uma forte oposição fetichista. Mebá alimentava a Igreja com seu entusiasmo e ardor evangelístico. A Igreja movia-se, andava longas distâncias e sacrificava-se muitas vezes para que, como afirmava claramente uma das músicas compostas na igreja em Koni: “todos Konkombaspossam, ao menos uma vez, ouvir que há salvação na pessoa de Yesu / Ele é o Filho de Deus / Seu sacrifício nos salvou / Espírito que causa arrependimento vem / Mexe em todos / A Igreja não pára, é hora de falar”. A ordem do dia era o evangelismo.

Muitos exemplos da audácia evangelística dos crentes Konkombas poderiam ser compartilhados, entretanto gostaria de falar a respeito de Tibala. Era um jovem de cerca de 20 anos, alto e forte, de um temperamento compenetrado. Morava às margens do rio Molan, nas imediações de Koni. Quando se converteu, sendo o primeiro do seu clã a vir para Jesus, sofreu toda sorte de perseguições familiares perdendo o direito de plantar sendo-lhe retirada a noiva que já lhe havia sido prometida além de perder toda e qualquer ajuda de seus irmãos.

Frequentemente o feiticeiro da aldeia visitava-o a fim de rogar-lhe maldições e nós temíamos por sua fé, pois vivia só como crente naquela área e sabíamos que seria tremendamente pressionado. Entre a casa de Tibala e Koni havia a “timor usori” – “floresta sagrada” – que na verdade não passa de um círculo de árvores altas as quais tem no meio um altar feito por três pedras e que era o maior e mais temido marco fetichista em Koni. Ali era vetada a entrada de qualquer um a não ser o feiticeiro da aldeia e seus ajudantes. Aqueles que assistiam os sacrifícios permaneciam no exterior do círculo. Também a terra no interior era considerada sagrada e servia tanto para proteger quando colocada em pequenas bolsinhas feitas de couro as quais poderiam ser penduradas ao pescoço ou amarradas no pulso, como para amaldiçoar, se jogada contra a entrada de alguma palhoça.

Tibala assumiu a liderança do louvor da igreja e certo dia, para nossa surpresa, correu um rumor de que havia passado pelo meio do “timor usori” quando retornava após um culto a noite, causando a ira dos fetichistas. Fomos até sua casa e ali ele, sentado tranquilamente em um ambiente visivelmente tenso falou:

“Como salvos em Cristo precisamos falar de Jesus aos nossos até que entendam, e muitos se convertam. Entretanto eu sei que muitos evitam até mesmo ouvir sobre Jesus com receio dos fetiches e assim durante o culto pensei: qual melhor maneira de manifestar que Jesus é maior que os fetiches do que mostrar que até mesmo a ‘timor usori’ é menor que Jesus?”

Aconselhamos, em vão, que não repetisse a experiência por a entendermos como provocativa e desnecessária, entretanto Tibala passou a cruzar a “timor usori” a cada ida e volta à igreja mesmo sob ataque da família, ameaças do feiticeiro e até do chefe da aldeia. Após duas semanas ele havia criado uma verdadeira trilha de acesso entre sua casa próximo ao rio e a igreja em Koni a qual passava exatamente pelo meio das árvores sagradas. Nada lhe aconteceu e após um mês outros crentes passaram a usar a mesma trilha sob a desculpa de que era uma linha reta entre a aldeia e o rio. As árvores sagradas perderam o poder ameaçador e Tibala não morreu como anunciou o feiticeiro o que levou várias pessoas, especialmente do seu clã, terem disposição para ouvir do evangelho. Entre as crianças corria um provérbio que literalmente seria: “O Yesu de Tibala / despreocupadamente / não receia a floresta sagrada / forte Ele é”.

Os problemas e erros de maior evidência durante o processo de evangelização e plantio de igrejas

Ao longo desta caminhada a Igreja Konkomba também experimentou tristezas, derrotas, problemas entre líderes e disciplinas. Passamos também por várias frustrações e ansiedades, enfermidades e envenenamento, desavenças e opressões. Rossana e eu erramos em diversas ocasiões e ensinamentos, tentamos reparar estes erros ao longo da caminhada. Outras questões e conflitos da vida permanecem ainda sem solução até nossos dias. Citaremos alguns pontos de conflito e oriundos de claros erros na comunicação do evangelho, ou discipulado, como referência para nosso estudo de caso.

1. Liderança. O conceito de autoctonia fomentou um critério muito apurado de aceitação de liderança externa. Ou seja, por possuírem uma forte liderança e serem autogovernáveis a Igreja Konkomba tem hoje dificuldade em aceitar que outros venham de fora para lhes ensinar, mesmo missionários estrangeiros ou pastores ganenses. Para outros serem aceitos primeiramente precisariam passar um tempo na tribo e Igreja, serem conhecidos e terem seu caráter observado. Apenas depois deste reconhecimento poderiam falar à Igreja. Cremos que enfatizamos demasiadamente a necessidade de serem autogovernáveis e este critério rigoroso de reconhecimento de liderança externa, apesar de funcionar também de forma positiva, tem gerado problemas no processo de comunhão e integração entre a Igreja Konkomba e a Igreja Evangélica no restante do país. Nossa leitura atual é que uma ênfase igualitária deveria ter sido dada entre a formação de uma igreja autogovernável e a comunhão com irmãos fora dos limites étnicos.

2. Musicalidade. No desenvolvimento de uma teologia de louvor e adoração passamos a limpo a musicalidade do povo, suas expressões, ritmos, instrumentos, historicidade musical e toques de tambor.

Todos os cânticos de adoração foram feitos pelos próprios Konkombas, nada tendo sido traduzido, o que vimos como sendo ideal para a valorização do padrão cultural musical da etnia. Pensávamos que haviamos ‘acertado’ na interpretação de forma ampla Havia, porém, toques (de tambor) específicos para cada ocasião, na cultura tradicional, desde a nomeação até o funeral. Um deles foi identificado como sendo um toque fetiche e sua prática foi excluída. Unamimemente os Konkombas convertidos criam que tal toque era invocatório a espíritos malignos e jamais deveria ser reproduzido por um crente. Este ponto foi positivo.

Um dos ritmos, porém, chamado kunadjun, é utilizado especialmente durante os funerais. Ritmo forte, com compasso acentuado levantava o povo para uma dança marcada pela pisada ritmada na terra enquanto os braços balançavam de forma aleatória. Entendemos inicialmente, pela utilização limitada do kunadjun em ambientes espiritualistas, com ênfase na ancestralidade ou totêmicos, que se tratava de um ritmo especialmente direcionado para invocação espiritual maligna, mesmo que não compreendêssemos sua personalização. Assim não o utilizávamos desde o início do ajuntamento cristão gerando uma natural barreira à sua utilização após este primeiro momento. Anos depois, em um encontro da liderança cristã Konkomba, ao discutirmos o assunto mais uma vez, fomos perceber que o kunadjun era um ritmo familiar usado para identificar os clãs e demonstrar hospitalidade aos que chegavam. Por motivos circunstanciais era utilizado em cerimônias animistas pela chegada de parentes que vinham de outras aldeias não sendo assim, associado à invocação na cosmovisão tribal. Os crentes, portanto, decidiram utilizar o kunadjun e percebemos que, por um grave erro de nossa observação, anos foram tolhidos na utilização deste ritmo que hoje serve para adorar a Deus, receber parentes e amigos que chegam de longe, e demonstrar especial alegria pelo ajuntamento na presença de Cristo.

3. Demora para o início do discipulado na segunda e terceira geração dos convertidos.

No início do trabalho evangelístico, primeira e segunda geração de convertidos, enfatizamos o discipulado individual e participativo. Como fruto desta época temos hoje os evangelistas com tempo integral e boa parte da liderança amadurecida na Palavra. Porém, devido ao crescimento da Igreja e com desejo de levarmos o Evangelho para novos e distantes lugares, o discipulado da segunda, e mais especialmente terceira geração de convertidos, foi fortemente prejudicado. Os encontros eram mais raros e em várias circunstâncias passamos a realizar um discipulado mais coletivo. Havia muita alegria pelo crescimento da igreja e críamos que era um momento do derramar da graça de Deus que precisaria ser aproveitado para levar a Palavra distante. Porém vimos depois que, devido à ausência de um discipulado mais prolongado e profundo, experimentamos vários problemas advindos da imaturidade dos crentes no tratar com os conflitos locais, radicalizando ou sendo passivos perante os mesmos. Em 2.000, durante encontro da liderança Konkomba vimos claramente a diferença de maturidade espiritual entre as gerações de convertidos e vimos nosso erro em evangelizar mais do que discipular nestes períodos de crescimento.

Poderíamos citar ainda diversos cenários de erros missionários no processo do evangelismo e plantio de igrejas e alguns erros da liderança das igrejas após assumirem a direção ministerial de forma mais integral a partir de 2001. Pensando especialmente nos erros missionários viria à nossa mente a demora para a inserção da ceia da Senhor nas igrejas plantadas, a ausência de uma teologia de gerra que pudesse guiar o povo para uma atitude bíblica segura perante os conflitos tribais com as etnias Dagomba e Gonja, e a falta de espaço linguístico para a etnia Chokossi, que habita nos derredoresKonkombas, durante os cultos e no discipulado fazendo com que aprendessem a Palavra em sua segunda língua. Certamente muitos outros poderiam ser descritos.


Conclusão

Uma visão histórica pode ajudar-nos a compreender o desafio da comunicação a partir dos sentimentos início.

Em maio de 1995, em uma de nossas circulares escrevemos sobre nossas primeiras impressões:

“Estamos aprendendo a língua, mas usá-la para expor o evangelho as vezes parece-nos uma tarefa impossível. Ainda não estamos certos se ‘Nfur-Nyaan’ - sopro – é um bom termo para Espírito Santo pois receávamos que possa ser também, raramente, usado para se referir aos ancestrais mais distantes. A sede das emoções, ao contrário do ocidente, não é o coração. Entre os Binallib com os quais vivemos é sem dúvida o estômago. Outra particularidade é a postura de comunicação. É indelicado olhar para a pessoa que está falando e confesso que ainda não nos acostumamos a conversar com um grupo enquanto este olha para outros lados ou até mesmo nos dá as costas. Mas estamos progredindo.”

Em novembro de 1995 falamos mais uma vez sobre o assunto:

“Várias de nossas impressões linguísticas sobre terminologias para a apresentação do evangelho estavam erradas. Os espíritos aéticos definem boa parte da cosmovisão do povo e precisaremos de bem mais tempo para podermos comunicar o evangelho bíblico com segurança. O romantismo acabou”.

Em julho de 1996 falamos também sobre a dificuldade da nossa adaptação:

“Após 1 ano e meio morando em uma palhoça com o irmão do chefe da aldeia de Koni finalmente estamos entrando em nossa própria casa. Como é bom ter novamente privacidade. Especialmente porque, de acordo com a cultura Konkomba, toda a família dorme reunida no pátio de fora das palhoças. Em nosso caso éramos 21 pessoas. Um outro bom motivo de alegria. Em nossa própria casa poderemos cozinhar nossa própria comida. Já estamos fazendo uma listinha de compras que inclui arroz e feijão ! Morando com eles nestes ultimos 18 meses tivemos especialmente dificuldade com a alimentação”.

Em julho de 1999, após a tradução e distribuição de Mateus, Atos e Romanos sentimos a força da Palavra na vida do povo convertido:

“ Isto trouxe à minha mente a cena que presenciei na aldeia de Koni em Fevereiro passado. Ao passar por uma palhoça por volta das 19:00 vi um ancião sentado próximo a uma fogueira tendo ao seu redor mais de 20 pessoas da sua família. Ele lia atentamente a Palavra de Deus em Mateus. Fui até as proximidades do rio Molan visitar alguns irmãos e voltei por volta das 23:00. Para minha surpresa eles continuavam atentamente prestando atenção ao ancião que pausadamente lia a Palavra em seu dialeto. Deus tem sido bondoso.”

Ficamos contentes que a chegada do evangelho entre os Konkombas-Bimonkpeln possa ser utiliza como estudo de caso para ajudar-nos a observar padrões de comunicação, processos de contextualização, acertos e erros.

Se houvesse, porém, algo a acrescentar neste momento eu poderia destacar a importância da flexibilidade no estudo dos padrões de comunicação. Na inviabilidade de termos acesso a toda a informação cultural antes da chegada na área nova vamos aprendendo à medida que vivemos e convivemos, ou mesmo trabalhamos e pregamos a Palavra. Isto faz com que precisemos sempre revisitar os princípios, rever os ensinos, repensar nas terminologias e conceitos, e sempre ouvir àquele que está ao seu lado. Precisamos orar por um coração humilde que não venha a nos preterir da flexibilidade necessária a todo missionário quanto o desafio é a contextualização. Conclusões apressadas demais, inflexíveis demais, estáticas demais, solitárias demais, são nossas inimigas.

Nunca devemos também perder de vista o alvo que é comunicar a Cristo de forma teologicamente respaldada e culturalmente inteligível de forma que Ele não seja compreendido como um Deus estrangeiro, para os de longe, mas como Deus entre eles, e entre nós.

 

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