Quatro padrões de observação dos fenômenos religiosos

Sugiro inicialmente utilizarmos quatro observações distintas e complementares sobre um mesmo fenômeno religioso a fim de examiná-lo em termos de compreensão e aplicabilidade na comunicação intercultural.


A observação Analítica

Tem início na observação passiva de fatos e fenômenos religiosos dentro de um ambiente humano definido. Prevê a observação a partir da cultura objetiva, ou seja, utilizando-se os elementos lingüísticos e culturais para coletar a informação de maneira completa, sistematizada e intuitiva. Piazza refere-se à observação como um meio de medição de valores partindo do pressuposto de que devemos observar toda experiência que transmita conhecimento. Neste caso o ato de soprar[1] a folha de caranã na maloca Hupdah com propósitos de proteção e preservação da moradia torna-se, em si, um fenômeno a ser observado de forma sistemática (procurando paralelismos tanto em outras culturas que cultivam o ‘sopro’ quanto em outros atos de ‘soprar’ na mesma cultura). A intenção aqui é observá-lo e depois, a partir dele observar outros fenômenos de ‘sopro’ paralelos e analisá-los historicamente. Neste caso, vejamos algumas perguntas da abordagem analítica deste fenômeno, como exemplificação: Quem realiza o ato de soprar? Crianças sopram? Pessoas de outra cultura podem soprar? Em que condições o sopro é realizado? Está ligado a um individuo ou comunidade? Há um código invisível? Qual o resultado esperado? Qual eu mecanismo de funcionamento? Quais os termos lingüísticos ao redor do ato? Como dialogam ao descrever ou mencionar o ato de soprar?

A proposta desta observação é analisar um ato social ou fenômeno religioso dirigindo a ele perguntas sistemáticas que poderão elucidar seu conteúdo, operacionalidade, mecanismo e intenção.


A observação Axiomática

Intenta compreender os reais valores dos elementos religiosos no mundo do aquém e não apenas suas formas de expressão. Portanto um sacrifício pode indicar medo ou proteção e são estes elementos subjetivos, medo ou proteção, a serem estudados no padrão axiomático.

Voltando ao “sopro” Hupdah, faríamos as seguintes perguntas da abordagem dos valores: Qual a idéia atrás do sopro? A comunidade perde o equilíbrio espiritual que precisa de renovo, através do sopro? Este ato pode ser substituído por outro também utilizado na cultura? É complementar a outro, como o benzimento? Há manipulação de uma força impessoal ou é espiritualista, com interação com seres pessoais invisíveis? Os sentimentos ligados ao sopro são sempre iguais ou alternam de circunstância a circunstância?

Nesta observação buscaremos o valor ou idéia por trás de cada ato social ou fenômeno religioso fundamental para nosso estudo.


A observação Correlativa

Tem a missão de, após analisar e também identificar os valores causadores das práticas sociais e religiosas, ligá-los às perguntas que os levaram a existir. Ou seja, correlacionar tais valores às perguntas sociais que geraram as práticas desenvolvidas. Boa parte desta abordagem é realizada a partir do conhecimento mitológico do grupo, que é normalmente causal.

Continuemos nossa exemplificação com o “sopro” Hupdah. Neste caso faríamos as seguintes perguntas: Quais as causas sociais que motivam o ato de soprar? Qual a origem deste ato? O sopro seria uma solução interna para quais problemas? Que contos ou mitos o relatam? A que, ou quem, está associado?

Estas perguntas já demandam um estudo mais prolongado e sugiro que você leia o texto a seguir sobre mitos com atenção ligando-o a esta observação, correlativa.

O objetivo nesta observação é identificar quais problemas o sopro se propõe a responder e em quais se omite, correlacionando-o com suas raízes mitológicas.


A observação Explicativa

Visa o desenvolvimento de respostas teológicas às perguntas realizadas através de tais atos sociais e fenômenos religiosos. O evangelho (e veremos de forma mais aprofundada na terceira abordagem, Angelos) deve ser apresentado como a proposta de Deus (supracultural e atemporal) para todo homem em toda cultura em todas as gerações. É, portanto, essencial, que compreendamos as perguntas antes de respondê-las sob risco de anunciarmos um evangelho alienígena, que trata dos conflitos humanos e sociais nossos e não daqueles que o recebem.

As perguntas da observação explicativa sobre o “sopro” Hupdah poderiam ser: É um fenômeno religioso ou um ato puramente social? Há invocação espiritual (seres pessoais)? Caso positivo, que seres são invocados? Neste caso, o que a Bíblia fala a respeito de tal invocação? Há manipulação de elementos naturais (magia)? Neste caso, o que a Bíblia fala a respeito da magia? Está associado a fenômenos religiosos centrais como o benzimento? Neste caso seria possível prever o sopro como uma possibilidade de sincretismo futuro durante o processo de evangelização?

Ou seja, nesta observação (explicativa) desenvolvemos uma teologia bíblica temática objetiva dos fatos sociais, fenômenos religiosos e idéias por trás de tais fatos e fenômenos.

Nesta altura já teremos, portanto, uma macro compreensão dos principais atos sociais definidores do grupo (abordagem Antropos), iremos examiná-los a partir destas quatro abordagens (introdutórias na abordagem Pneumatos) e seguiremos adiante categorizando-os e examinando-os de mais perto nas próximas páginas (abordagem Pneumatos).




[1] Marcelo Carvalho nos explica que há um sopro natural e um mágico no universo Hupdah. O natural é puhut, o ato de soprar, e o mágico é döh para causar um efeito sobrenatural.

 

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