Os filhos de Issacar e nosso novo Milênio

Discernindo os tempos e seguindo a visão de Deus

Há um provérbio Gonja, tribo no oeste africano, o qual diz que “os cachorros de ontem não conseguem caçar os coelhos de hoje” mostrando que novos problemas demandam novas abordagens e concluindo simplesmente que os coelhos de hoje são mais espertos do que os de ontem.

Em 1 Crônicas 12 encontramos Davi prestes a ser coroado Rei em Hebrom “segundo a palavra do Senhor”. A partir do verso 24 lemos uma longa lista de clãs e famílias que subiram para a peleja em cumprimento da visão de Deus, entretanto no verso 32 quando falava-se sobre “os filhos de Issacar” o Espírito Santo decidiu imprimir ali duas expressões de impacto sobre aquele clã quando afirmou que:

“Dos filhos de Issacar, conhecedores da época, para saberem o que Israel devia fazer, duzentos chefes, e todos os seus irmãos sob suas ordens”.

A expressão “conhecedores da época” pode ser literalmente traduzida por “estudiosos dos fatos” ou ainda “conhecedores da história e suas implicações”. O texto portanto fala sobre homens que eram informados, atualizados, que possuíam percepção do que acontecia ao seu redor.

A Segunda expressão de impacto sobre estes “filhos de Issacar” é justamente “...para saberem o que Israel devia fazer”, ou seja, com “discernimento” sobre que caminho tomar.

Todas as famílias e clãs ali listados caminhavam juntos com o alvo de coroar a Davi entretanto havia entre eles homens que iam além da dinâmica da massa: que estudavam a história, que discutiam sobre as implicações dos fatos, que se atualizavam a cada dia, que provavam cada informação e buscavam discernimento do Alto sobre o que fazer. Eles eram estudiosos entretanto também piedosos; acadêmicos, mas orientados pelo Espírito; usavam o intelecto mas queriam ouvir a voz de Deus.

Nesta virada de milênio a Igreja é confrontada pelo pós modernismo que cultua os resultados e despreza os valores tentando ensinar nossos pastores que “importa crescer – não importa como”; somos desafiados pela filosofia da intolerância social na Igreja que leva-nos a crer que temos sempre mais diferenças do que pontos em comum com o outro grupo o qual, paradoxalmente, segue ao mesmo Senhor que servimos e estará conosco na eternidade; somos ensinados que “o novo é sempre melhor” desencadeando uma corrida pelos ventos de novidades e doutrinas mesmo sabendo que o evangelho é antigo, os profetas viveram na antiquidade e a própria Igreja neotestamentária já conta com 2 mil anos de história.

Vivemos um momento histórico onde precisamos de “filhos de Issacar” em nosso meio. Homens que olhem além do horizonte, que estudem a época e a história ao mesmo tempo em que se submetam a Deus, que usem ao máximo o raciocício e conhecimento acumulados em nossa teologia mas também busquem ao Senhor com toda a força de suas almas; que vivam no século 21 com sua nova tecnologia e comunicação disponíveis mas não abram mão daquele momento em que o Espírito diz “este é o caminho, andai por ele”.

Tendo isto em mente olhemos para a nossa corrente história e vejamos alguns pontos de tensão em nosso Cristianismo na era pós moderna sobre os quais precisamos clamar por discernimento dos céus.

1. A carnal tendência humana de esquecer que Deus é maior do que nós

“Glorificar a Deus” ao longo dos séculos passou a ser mais uma expressão cristã do que uma prática de vida. Lembro-me que, após expor Romanos 16 para um grupo de líderes evangélicos em uma aldeia africana, um deles concluiu: “sim, então podemos dizer que glorificar a Deus é reconhecer que Ele é maior do que nós”. Creio que haviam entendido boa parte da mensagem.

Hoje tendemos a esquecer que Deus é maior do que o homem, que a glória de Deus importa mais do que a nossa glória, que o Senhor é soberano e nós dependentes da Sua graça.

Alguns teólogos do século 19 olhavam para a vida de Jesus e pensavam: Ele fracassou.
Olhem bem para os seus discípulos, seus amigos do peito. Ele não foi capaz de evitar-lhes a dor, a perseguição ou o sofrimento. Nem mesmo para os 12, os mais chegados. Passaram por açoites, foram perseguidos e traídos. Caíram enfermos e alguns foram martirizados. George Strauss, no fim do século 19, zombava dizendo: “Ele não tinha poder. Seus amigos morreram sós, traídos e em sofrimento. Morreram sem glória”. Strauss, apesar de irônico, liberal e distante da verdade, acertava em sua última afirmação: “Morreram sem glória”. Mas morreram para a glória de Deus.

A primeira Missão da Igreja não é proclamar o evangelho, não é se expandir nem mesmo conquistar a mídia ou impactar a sociedade. A primeira Missão da Igreja é morrer. Perder os valores da carne e ser revestida com os valores de Deus. É se “desglorificar” para glorificar ao seu Deus.

Quando perguntaram a George Müller sobre o segredo do seu sucesso ministerial, a sua resposta imediata foi: “O segredo de George Müller é que George Müller morreu já há alguns anos atrás”. É preciso reafirmar nesta virada de milênio o motivo da nossa existência: a glória de Jesus, Senhor da Igreja.

É tempo de reconhecer que Deus é maior do que nós.

2. O desenvolvimento de uma personalidade não funcional na Igreja de Cristo

Cirenius, teólogo bizantino, afirmou que “a Igreja sofrera a tentação de desenvolver a sua personalidade e perder a sua finalidade. À imagem do primeiro homem, a Igreja também peca quando esquece o porquê está aqui e imagina ser suficiente apenas o existir. Torna-se assim tal qual uma linda rosa vermelha... a qual nasce, cresce, murcha e morre em um campo distante sem por ninguém ser vista, sem a nenhum olhar dar prazer”.

A carta à Igreja de Laodicéia no capítulo 3 de Apocalipse mostra-nos com realismo uma cobrança de funcionalidade. O texto fala sobre a possibilidade de uma Igreja ser quente, fria ou morna e erroneamente tem sido visto ao longo de anos como uma simples apresentação de três diferentes níveis de espiritualidade. Se o analisarmos cuidadosamente, entretanto, veremos que o assunto tratado é a funcionalidade da Igreja, o que ela faz baseado em quem ela reconhece ser.

Esta carta começa afirmando “conheço as tuas obras” (3:15) onde a expressão ‘erga’ (obra) aponta para a vida normal da Igreja, não necessariamente as suas realizações. Creio que Jesus afirmava aqui o completo conhecimento – de grandes e pequenas coisas – que Ele possui sobre a comunidade dos santos.

“Que não és quente nem frio. Quem dera fosses quente ou frio...” é basicamente uma afirmação de desejo. O Senhor Jesus afirmando à Igreja em Laodicéia que desejava que fossem quentes ou frios. Não há indícios para crermos que fosse uma expressão de ironia mas sim um desejo sincero de vê-los tanto quentes quanto frios. Para entendermos esta afirmação precisamos lembrar que Laodicéia localizava-se entre duas grandes e conhecidas outras cidades na região. Hierápolis e Colossos.

Hierápolis era conhecida em toda a região por suas fontes de águas frias. Uma espécie de Oásis no verão para onde as multidões afluíam. Segundo o historiador T. Orgeon, à entrada da cidade havia uma inscrição com os dizeres: “Lugar de Refrigério”.

Colossos era ainda mais conhecida pelas suas fontes de águas quentes, sobre as quais dizia-se possuírem poderes medicinais e terapêuticos usadas por pessoas com problemas ósseos, reumáticos, respiratórios e tantos outros. Um lugar para cura e terapia do corpo.

Quando o Senhor afirmou à igreja: “que nem és quente nem frio” creio que a figura das águas quentes e frias de Colossos e Hierápolis fora usada e assim poderíamos parafrasear: Que nem possuis função de causar refrigério às vidas que os procuram como as águas frias de Hierápolis; como também perdestes a função terapêutica de alívio aos aflitos à semelhança das águas quentes de Colossos. Como sois mornos (e águas moras não possuem função) estou a ponto de vomitar-te da minha boca.

Vivenciamos hoje a atual tendência da errática cristã a qual tenta incluir-se nas bênçãos do evangelho e auto excluir-se de sua prática: a anti-bíblica vontade de ver a terra arada sem por as mãos no arado.

É tempo de trabalhar, enquanto é dia.

3. A procura por uma Igreja kerygmática, mas também martírica

Há dois termos largamente usados no livro de Atos que retratam o caráter cristão: proclamação e testemunho. O termo grego para ‘proclamação’ é ‘Kerygma’: a forma estratégica e inteligível de comunicar a mensagem do evangelho. É a Igreja se preparando, estudando e analisando as possibilidades de comunicar o evangelho a um grupo, seja uma pessoa, família ou povo. Isto é Kerygma.

‘Martíria’ é o termo grego para ‘testemunho’ e sempre está ligado ao Kerygma. Entretanto ‘Martiria’ não é uma proclamação inteligível e estratégica como encontro de casais, acampamentos evangelisticos, evangelismo explosivo ou células familiares. Martiria é testemunho de vida, a personalidade transformada pelo Senhor. É domínio próprio em casa, ser justo com os empregados, ser brando no falar. É ser a imagem de Jesus.

A Igreja em Atos foi chamada para ser primeiramente Martírica – viver com fidelidade tudo aquilo que crê - e só então assumir uma postura Kerygmática.

Atos 1:1 inicia enfatizando “... o que Jesus começou a fazer e a ensinar...” onde ‘Erzato... poien’ (começou a fazer) é uma sentença também encontrada nas “Narrações de Vitórias” de Blass quando fala de um general grego o qual, tendo encerrado com impactante vitória uma campanha armada contra a cidade de Temas, envia um arauto à aldeia vizinha preanunciando que ela seria a próxima a ser conquistada. A força desta expressão (começou a fazer) mostra que a campanha continua, que a força é a mesma, que o cansaço não impede que tudo seja feito novamente e quem sabe ainda mais. Aponta para Jesus o qual, após nascer, viver, morrer e ressuscitar no Evangelho segundo Lucas, continua a agir em Atos com a mesma força e autoridade. É o Senhor presente que preanuncia: Eu continuo a fazer.

Entretanto a expressão ‘te kai’ (e) intermedia os verbos principais do versículo 1: “fazer e ensinar” e faz com que a posição destes dois termos não seja mudada. Ramsay crê que a posição dos verbos (fazer vindo antes de ensinar) é uma estrutura emítica onde o contrário seria danoso ao texto. Sendo assim podemos ver que Lucas estabelece um modelo ao redor da pessoa de Jesus mostrando que Ele primeiramente ‘fazia’ antes de ‘ensinar’, que sua vida precedia sua doutrina, que seu caráter homologava sua teologia. Lucas utiliza ‘didaskein” (ensinar) para introduzir a pessoa do ‘didaskalos’, (mestre) mostrando que o abismo que hoje separa aquilo que cremos daquilo que fazemos não tem raíz no Cristianismo bíblico. Precisamos viver de acordo com aquilo que crê o nosso coração.

É tempo de buscar uma Igreja kerygmática em sua missiologia e martírica em seu caráter.

Conclusão

Talvez o grande desafio da igreja de Cristo neste começo de milênio seja expressar uma vida compatível com a sua fé: a busca pelo Cristianismo genuíno e sincero ensinado por Jesus. Uma Igreja onde o líder cristão não domina o seu rebanho, antes o serve; onde o perseguido não odeia seu perseguidor, antes intercede por ele; onde o menor é o maior, morrer é um ganho, só se torna forte os que reconhecem a fraqueza, anda-se duas milhas com quem te obriga a andar uma, vira-se a outra face a quem te fere, não há apego a este mundo pois todos são peregrinos, a garantia é uma promessa e só se alcança a vida quem primeiro morre.

E para caminharmos nos passos de Jesus nestes novos tempos é preciso olhar para todos os lados, como filhos de Issacar, conhecendo as épocas e pedindo discernimento dos céus a fim de morrermos sem glória, para a glória de Deus.

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