Missio Fidelis

 

Avaliando as motivações da dinâmica missionária da Igreja

Chomsky, um dos maiores linguistas vivos na atualidade e expositor da semiótica, defende que o mais influente elemento na comunicação do homem de hoje é o hedonismo, a busca da felicidade individual.

Este fenômeno social é bem visível ao nosso redor tanto no individualismo proposital como na quebra dos valores morais em favor da auto-satisfação. O “ser feliz” tornou-se a finalidade maior da existência na terra. Infelizmente esta sócio influência também pode ser encontrada na Igreja. Não raramente crentes e líderes, confrontados com a proposta do evangelho que condena o pecado, defendem-se argumentando: “não tenho eu o direito de ser feliz?” Nas palavras de C. S. Lewis o crente “não nasceu para ser feliz mas para amar”. Ou seja, a razão de existir da Igreja vai além da auto-satisfação. Não é meramente ser feliz, mas fazer Deus feliz.

Caráter e Reputação

Quando estudamos a dinâmica da Missão não nos distanciamos desta terrível influência hedônica. Em lugar dos valores do Reino estamos sendo invadidos por paradigmas hedônicos como o crescimento numérico, a visibilidade personalista e a celebração da nossa própria capacidade, títulos e diplomas. O contraposto deste movimento que cultua a carne e celebra o homem é o Evangelho, que lembra-nos aos brados que o centro da Missão é a pessoa de Jesus Cristo.

Para evitarmos uma contaminação humanista irreversível precisamos inicialmente compreender que a ação missionária não deve ser definida em termos de resultados mas sim pela fidelidade ao Senhor.

Não apregoo uma proclamação estéril do evangelho, entretanto devemos entender que a Missão não deve ser avaliada apenas pelos resultados numéricos, visíveis e contábeis mas sim pela fidelidade de coração. Charles Kermann nos adverte que “nada do que tocamos é eterno” lembrando-nos que as coisas eternas não podem ser medidas por olhos humanos. Precisamos resgatar uma missiologia mais escriturística que induz a Igreja à fidelidade e menos empresarial que exalta o homem na proporção dos seus resultados.

Wiliiam Davison faz uma clara distinção entre reputação, o externo que pode ser visto pelos homens, e o caráter que é a verdade sobre nossas vidas dizendo:

“Reputação é o que os homens pensam a seu respeito mas caráter é quem você verdadeiramente é. Reputação é a fotografia mas caráter é face.
Reputação fará de você rico ou pobre mas caráter fará de você feliz ou infeliz.
Reputação é o que os homens falam de você no dia do seu funeral mas caráter é o que os anjos dizem a seu respeito perante o trono de Deus”.

Desta forma o Dr. Russel Shedd, muito sabiamente, nos adverte que frequentemente nos impressionamos com homens e ministérios que não impressionam a Deus. Na verdade nos impressionamos pelas estruturas construídas, números bem enfáticos nos relatórios, pela retórica na pregação e resultados apresentados. Mas Deus julga o coração.

A obra missionária deve ser norteada por uma Igreja que cuida do seu caráter e não o negocia perante a demanda dos resultados rápidos.

Capacidade humana e Graça de Deus

Se entendemos que fidelidade ao Senhor é a raiz para o movimento missionário precisamos então nos perguntar sobre a sua motivação. Qual é a verdadeira força propulsora de um movimento missionário? Há vários caminhos possíveis para desenharmos uma resposta mas ao longo da história do Cristianismo vemos nitidamente aqueles que buscaram basear seus ministérios na própria capacidade humana e aqueles que o fizeram na graça de Deus.

Paulo faz parte deste segundo time e deixa isto bem claro à Igreja em Corinto quanto apresenta os apóstolos, incluindo também a si, como “fracos, desprezíveis, lixo do mundo e escória de todos” . Em outras palavras ele dizia: ‘Nós não somos apóstolos porque somos capazes. Somos apóstolos pela graça de Deus’.

Vem agora à minha mente a história do Sr. João o qual encontrei em uma região isolada quatro dias de caminhada na selva amazônica entre as tribos Kambeba, Miranha e Kokama. Para nossa surpresa aquelas comunidades indígenas haviam sido alcançadas tendo nascido ali maduras igrejas e o missionário foi este pescador voluntário, crente da assembleia de Deus, que apesar das suas limitações de estudo e preparo era tremendamente apaixonado por Jesus. Ele vivia em um paupérrimo flutuante próximo a uma das comunidades indígenas, sem sustento ou cobertura de oração. Jamais teve seu nome mencionado nos relatórios missionários ou foi apresentado como tal em um congresso. Entretanto ele irradiava felicidade ao apresentar-nos às tribos e afirmar: “isto é o que Deus pode fazer”.

Tenho sido impactado pelo valor da Graça de Deus na obra missionária. Isto porque, perante os incríveis desafios que temos perante nós, tais como os 2.227 povos sem o evangelho, as mais de 3.500 línguas sem a tradução bíblica e as 103 tribos indígenas brasileiras sem presença missionária, a pergunta mais óbvia leva-nos a pesar nossa capacidade em detrimento da seara. E se assim fizermos, se eu meço o meu ministério por aquilo que sou capaz de fazer, então tenho sonhos limitados e a minha equação ministerial torna-se proporcional ao que sou capaz de realizar, e é nitidamente pouco. Mas se cremos que a expansão do Reino na terra se dará impulsionada pela Graça de Deus então podemos sonhar e olhar além do horizonte. Podemos crer que mesmo sendo fracos e desprezíveis, para ficar na citação de Paulo, tudo tornar-se-á possível no Deus dos impossíveis.

Precisamos reacender a chama missionária no Brasil. Devemos priorizar o caráter sobre a imagem e a reputação buscando fidelizarmos nosso compromisso missionário. Assegurando a missio Fidelis em nossa dinâmica missionária podemos nos convencer que, se a graça do Pai e não nossa mera capacidade humana, é o alicerce da expansão da fé, então podemos sonhar um pouco mais e crer que o impossível vai acontecer. Vamos por a mão no arado e sonhar com a explosão na transmissão de um evangelho autêntico e responsável até aos confins da terra - que não é tão longe de nós.

 

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